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  • Variação no uso de porque em português: fatores linguísticos e sociais
    Publication . Aguiar, Joana
    Em português, o elemento de ligação porque estabelece uma relação de causalidade entre duas proposições ou dois atos de fala. Adoptando a proposta de Sweetser (1990), considera-se que a relação de causalidade pode ser tripartida em: causa real (1), causa explicativa (2), e causa interacional (3). (1) A Ana escorregou porque o chão estava molhado. (2) A Ana não deve gostar de marisco, porque não comeu nada. (3) Vai desligar as luzes. Porque precisamos de poupar energia. Do ponto de vista sintático, as estruturas introduzidas por porque não constituem uma classe de estruturas homogéneas (Lobo, 2003, 2013; Peres & Mascarenhas, 2006; Mendes, 2013; Aguiar & Barbosa, 2016). Os resultados de testes de escopo e clivagem apoiam a classificação destas estruturas em orações subordinadas adverbiais (não periféricas) (1) e estruturas suplementares (2, 3). Neste sentido, as orações subordinadas não-periféricas estão integradas na oração principal, c-comandadas ao nível de TP (Lobo, 2003), ao passo que as suplementares são estruturas paratáticas, com recurso a um operador, que estabelecem uma relação de dependência semântica com a estrutura à qual estão ancoradas, apesar de não estarem integradas, do ponto de vista sintático, nesta (Huddleston & Pullum, 2002; Peres & Mascarenhas, 2006). Tendo em consideração a classificação semântica e sintática das estruturas introduzidas por porque, este trabalho explora, a partir de uma perspetiva variacionista laboviana (Labov, 1972 e seguintes), a frequência de ocorrência destas estruturas e a sua distribuição de acordo com o sexo, a idade, e a escolaridade do informante. Os corpora em análise são compostos: (i) por textos redigidos a pedido por informantes adultos e não adultos, mediante tarefas controladas; e (ii) por textos recolhidos da blogosfera, redigidos apenas por falantes adultos. Os resultados mostram que a relação de causa explicativa é mais frequente, principalmente nos textos redigidos por informantes mais velhos e com mais escolaridade. Pelo contrário, os informantes mais novos e com menos escolaridade tendem a estabelecer mais frequentemente relações de causa real. Estes resultados ilustram o pressuposto de que a relação de causa real é mais facilmente processada (Noordman & Blijzer, 2000). O recurso a um conector explícito de alta frequência (Costa, 2010), como é o caso de porque é, assim, uma estratégia básica de argumentação e de estruturação textual em falantes mais novos e em falantes com menos escolaridade.
  • Unidades e processos fonológicos no falar da região da Terra Quente: contributos para a Linguística Forense.
    Publication . Aguiar, Joana
    Nos últimos anos tem crescido o interesse pela análise forense da produção linguística. É no seguimento desta tendência que surge a presente tese, um trabalho pioneiro no panorama dos estudos linguísticos em Portugal. Tendo como objectivo a identificação de traços caracterizadores de grupos de falantes a partir de unidades e processos fonológicos, entrevistámos cem falantes da Terra Quente Transmontana, equitativamente divididos por concelho de origem (Alfândega da Fé, Carrazeda de Ansiães, Macedo de Cavaleiros, Mirandela, Vila Flor), escolaridade do falante (Alfabetizado/Analfabeto), sexo (Feminino/Masculino) e idade, tendo sido considerados quatro intervalos etários: [20-35], [36-50], [51-65] e [>65]. Depois de recolhido e transcrito o corpus optámos por analisar os seguintes aspectos: (i) distribuição de classes de segmentos; (ii) distribuição dos tipos silábicos; e (iii) distribuição de acento; e os seguintes processos: (i) a manutenção da africada surda (e.g. [tSamar); (ii) a semivocalização da lateral em pronomes e determinantes (e.g. eis pagavam pouco); (iii) a centralização das vogais anteriores [-altas] (e.g. tempo> t[ã]po); (iv) a realização de /S/ em contexto final de palavra seguido de segmento [-consonântico] (e.g. a[z]aulas; a[Z]aulas; a[S]aulas); e (v) o sândi externo envolvendo a realização da nasal (e.g. assim que biam na gente). As opções metodológicas na recolha e tratamento de dados foram feitas de acordo com a abordagem metodológica da linguística variacionista laboviana (Labov 1966, 1969, 1972 [1991]), tendo sido consideradas as variáveis externas ou sociais já referidas e variáveis internas ou linguísticas específicas de cada processo analisado. A análise fonológica a partir de variáveis externas e internas permitiu-nos verificar de que forma os aspectos sociais e linguísticos se correlacionam na realização das unidades e processos já mencionados, podendo, ao mesmo tempo, contribuir para a identificação de grupos de falantes. Desta forma, concluiu-se que a ocorrência das unidades e processos fonológicos depende de factores linguísticos, como a frequência de palavra, a qualidade dos segmentos e o acento, entre outros; e das características sociais dos falantes, sendo a idade e a escolaridade os factores que, de acordo com o nosso estudo, mais influenciam o comportamento linguístico e, desta forma, aqueles que poderão concorrer para a identificação de falantes da Terra Quente Transmontana. In the last years, the interest in forensic analysis of linguistic data has increased. Having this tendency in consideration, it was our intent to identify characteristic features of groups of speakers based on the use of phonological units and processes. This work is pioneer in Portugal. To carry on this study we collected informal conversations of 100 speakers, natives of Terra Quente Transmontana, evenly divided according to place (Alfândega da Fé, Carrazeda de Ansiães, Macedo de Cavaleiros, Mirandela, Vila Flor), Education (Alphabetized/Illiterate), sex (Feminine/Masculine) and age, divided in four age groups: [20-35], [36-50], [51- 65] e [>65]. After collecting and transcribing the corpus we analysed the following units: (i) number of segments from different classes; (ii) number of different syllable types; and (iii) distribuition of stress; and the following processes: (i) the occurrence of the voiceless affricate [˝sR] (e.g. [sR\amar); (ii) the semivocalization of the lateral in pronouns and determiners (e.g. eis pagavam pouco ); (iii) the centralization of low [-high] vowels (e.g. tempo> t[ã]po); (iv) the specification of /S/ in syllable final position before [-consonantic] segments (e.g. a[Y]aulas; a[y]aulas; a[R]aulas); and (v) the external sandhi involving the realization of the nasal (e.g. assim que biam na gente ). The methodological choices in the collecting process and treatment of data were made according to the Labovian variacionist approach (Labov 1966, 1969, 1972 [1991]). Thus, we considered the social variables already mentioned, and linguistic variables specific to each process analysed. The phonological analysis through social and linguistic variables allowed us to see how the social and linguistic aspects are correlated in (i) the realization of the units and processes already metioned and (ii) in the identification of groups of speakers. The, we concluded that the occurrence of phonologic unites and processes depends on linguistic variables, such as word frequency, quality of the segments and stress distribution, among others; and on social variables, being education and age the factors that can most likely be used to identify speakers from Terra Quente Transmontana.
  • A africada surda e a semivocalização da lateral: um estudo sociolinguístico
    Publication . Aguiar, Joana
    Neste trabalho, analisamos a ocorrência da africada surda e da semivocalização da lateral em pronomes e determinantes, a partir de entrevistas espontâneas recolhidas nos cinco concelhos que constituem a Terra Quente Transmontana. Os entrevistados são falantes adultos, estratificados de acordo com o sexo, a idade e a escolaridade. A africada surda ocorreria no discurso oral, até meados do século XVIII, em palavras grafadas com , derivadas dos grupos consonânticos latinos CL-, PL- , FL- (Maia, 1986). Atualmente, a ocorrência da africada surda está cristalizada lexicalmente e ocorre no português oral em Trás-os-Montes e no mirandês. O fenómeno de semivocalização da lateral em pronomes e determinantes resulta da conjugação de aspetos fonológicos e morfológicos aplicados a itens lexicais de alta frequência. Os fenómenos em análise são socialmente estigmatizantes e estão associados a regiões do interior de Portugal e a falantes idosos. Surgem, inclusive, descritos nos trabalhos de Vasconcellos (1890-1892, 1985) como elementos que caracterizam a “linguagem popular” de Trás-os-Montes. Os resultados permitem-nos concluir que a africada é realizada maioritariamente por falantes com mais de 65 anos (95%) e em falantes não escolarizados (55%). Quanto aos fatores linguísticos, é notória a importância do léxico na manutenção da africada surda, na medida em que 88% das ocorrências podem ser agrupadas em apenas cinco grupos de frequência: formas verbais de chamar, chegar e chorar; formas derivadas do adjetivo pequeno; e formas regionais, como chícharos ou chorros. No que diz respeito à semivocalização da lateral, é também nos falantes com mais de 65 anos de idade que este processo é mais comum, tendo, também, sido registada a sua ocorrência em falantes na faixa etária [36-50]. Verificou-se que estes falantes são provenientes de Macedo de Cavaleiros e Alfândega da Fé, concelhos próximos da área de difusão do mirandês, língua onde este fenómeno também ocorre. Esta constatação sugere que a manutenção da realização da semivogal (em detrimento da lateral) em falantes cuja produção linguística é tipicamente mais próxima da variedade dita normativa (Eckert, 1997) poderá ser explicada através da proximidade com a área de difusão de uma língua que conserva a semivocalização em determinantes e pronomes.
  • Emotional Deixis in Online Hate Speech
    Publication . Aguiar, Joana; Barbosa, Pilar
    In recent years, the debate around hate speech in online settings has flourished. Automatic tools have been developed not only to detect hate speech but also to distinguish it from offensive and non-offensive language. Most of these automatic tools use a lexicon-based approach or a combination of it with sentiment analysis (Davidson et al. 2017; Martins et al. 2018 and references therein). Nonetheless, content words alone are not the only linguistic elements that may convey expressiveness or heightened emotional states. As observed by Potts and Schwarz (2010), the sources of expressive content in language use are not always transparent and often arise from the way apparently innocuous functional elements are used. One such case is the use of demonstratives. Besides their function of indicating spatial and temporal relations or establishing anaphoric reference, demonstratives are often used to convey the speaker’s emotional involvement — emotional proximity or distance — in the subject matter (Lakoff 1974). In addition, work on demonstrative use has highlighted the role of demonstratives in establishing a common ground or shared perspective between speaker and addressee, thus potentially being used as tools to express complex social meanings and attitudes (Lakoff 1979, Chen 1990, Acton and Potts 2014).
  • Quando uma língua não é suficiente: exemplos de code switching na comunicação online
    Publication . Aguiar, Joana; Ermida, Isabel
    Nos últimos tempos, tem crescido o debate em torno da linguagem no mundo virtual. Neste trabalho, apresentamos dados preliminares do fenómeno de code-switching na comunicação online (CMC – Computer-mediated Communication), em especial nas redes sociais. Entende-se por code-switching o emprego simultâneo, no mesmo discurso, de duas línguas ou de duas variedades linguísticas. Apesar de tradicionalmente os estudos de code-switching estarem associado ao discurso oral de falantes bilingues com objetivos simbólicos, estratégicos ou comunicativos (Auer, 1998), têm surgido, nos últimos anos, trabalhos sobre o impacto do inglês no discurso online estabelecido na língua materna dos intervenientes (Decker & Vandekerckhove, 2012), alargando, assim o escopo dos termos code-switching e code-mixing (Auer, 2011) a contextos de interação que envolvem apenas falantes monolingues. A comunicação estabelecida nas redes sociais assemelha-se a uma conversa quer no que diz respeito ao registo informal quer relativamente à gestão interativa (Herring, 2011), facilitando, por isso, a emergência de formas vernáculas e não-standard. A este propósito, no entender de Androutsopoulos (2005), o uso de calão, mais frequente em adolescentes, pode ser entendido como um marcador de solidariedade e cortesia. Por outro lado, no discurso de ódio, os valores pragmáticos associados ao uso de calão são distintos. Pretende-se, com esta comunicação, mostrar que o fenómeno de code-switching ocorre no discurso online em português. As instâncias de code-switching em inglês não se restringem apenas a acrónimos, abreviaturas ou calão, sendo, também possível encontrar exemplos de itens lexicais, orações e frases em inglês justapostas com o texto em português.